Os desafios da gestão de pessoas em momentos de crise


Compartilhar

Por Marcelo Reis*

Nunca a gestão de pessoas esteve tão complicada como agora. Dados do Ministério do Trabalho revelam que o número de processos trabalhistas continua aumentando. Ano passado foram 3 milhões, uma cifra que coloca o Brasil como o campeão nesse tipo de pendenga judicial. Claro, não poderia ser diferente, afinal o Brasil é a nação com os maiores encargos trabalhistas do planeta. A média é 57%, enquanto países como Dinamarca e Canadá, que são exemplos de países desenvolvidos e com boas práticas, esse percentual está na casa de 5%.

Desses 3 milhões de processos, quase a metade acontece em decorrência da falta de pagamento das verbas rescisórias. Também nenhuma surpresa nessa informação, afinal o elevado custo de demissões faz com que as empresas tenham dificuldades em honrar seus compromissos com os trabalhadores em momentos de profunda crise como a que estamos passando agora. Então, quem empreende sabe que está sujeito a esse tipo de problema. A questão é que todo esse cenário de polarização ideológica e de conflitos entre empregados e patrões gera um outro problema que afeta o clima organizacional e dificulta a gestão de pessoas.

Então, se já não bastassem todas as dificuldades que as empresas estão vivendo para se manterem lucrativas e crescendo nesse momento complexo, engajar colaboradores de forma a manter a produtividade está muito mais difícil. A grande pergunta é como manter um bom ambiente de trabalho e ter colaboradores motivados diante desse cenário, onde o empreendedor é sempre considerado o “Lado Negro da Força”? Esse é o grande problema que os gestores enfrentam hoje. A cultura do nosso país não favorece o empreendedorismo, muito pelo contrário, ela desestimula ao colocar os empresários com esse estigma negativo. A classe trabalhadora é facilmente seduzida pelo discurso que dissemina o ódio com a ideia do patrão sempre explorador e do empregado sempre explorado e fica difícil engajar colaboradores em um ambiente assim.

Os mais suscetíveis a esse tipo de discurso são os trabalhadores da base da pirâmide, normalmente com escolaridade inferior. Para quem recebe os salários menores dentro de uma organização, o conceito do patrão explorador é sempre um alento. Ele tira a responsabilidade pelo crescimento e desenvolvimento profissional da própria pessoa e joga a culpa pela condição menos favorecida nas costas do empresário. Os profissionais de nível superior, com cargos mais elevados, já compreendem as relações de trabalho e a mecânica do mercado de outra forma. Por isso, o papel dos gestores é fundamental. Mas, poucos estão preparados para lidar com isso.

O que fazer? Como melhorar o ambiente organizacional e engajar pessoas nesse momento em que a conduta e a credibilidade das empresas está sendo tão questionada? A resposta está nos valores. Hoje, mais do que nunca, a empresa ser considerada uma boa empresa para se trabalhar é fundamental. Gozar de uma boa reputação e, principalmente, ter em sua missão compromissos com a sustentabilidade do planeta e com as causas sociais devem estar presentes nos valores. O que a sua empresa agrega para o mundo e para as pessoas? Essa resposta deve ser nítida para cada colaborador dentro da organização. O que faz com que eu tenha orgulho de trabalhar aqui? Que diferença a empresa onde eu trabalho faz? Esses tipos de questionamentos, quando respondidos, criam uma identificação e um engajamento.

As grandes empresas já possuem políticas de gestão de pessoas estruturadas com estratégias para gerenciar o ambiente de trabalho. Mas, as pequenas e médias ainda não têm essa cultura. Quem começa a empreender, na maioria das vezes, fará o papel de patrão e de RH também. Mas, mesmo uma pequena empresa pode ter valores que a diferenciam das demais. O importante é mostrar que o lucro é necessário, mas que não é o único objetivo, e que a empresa tem um poder transformador que contribui para melhorar a vida das pessoas e criar um mundo melhor.

*O autor é empreendedor e presidente do Instituto Imprendere que faz estudos e pesquisas sobre motivação

Compartilhar